domingo, 8 de abril de 2012

5º andar.

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Ele sempre ali sozinho, muito bem acompanhado por si mesmo. Nunca foram muito próximos, quando ainda sentavam na mesa da cozinhar durante as refeições costumavam preservar o silêncio, não conseguiam e nem se importavam em quebrar a barreira do "me passe o sal por favor" ou do "obrigado". Moravam em um apartamento pequeno ele e seu pai, enquanto o pai dormia no sofá da sala em frente a televisão cheia de coisas vazia ele ficava no seu quarto cheio de restos de comidas e em frente á um computador com milhares de amigos irreais. Saia do quarto e ia á cozinha sem ao menos ser notado, e o único barulho da casa era o das pessoas conversando dentro daquela caixa preta que iluminava a mesa de centro cheia de garrafas pela metade e cinzeiros cheios. Quando voltava para seu canto encontrava os livros, os discos e mais cinzeiros cheios (maldito hábito familiar) que ajudava a propagar o cheiro de nicotina em todos os cômodos da casa. Não se falavam, não se tocavam e nem trocavam olhares, nada de "bom dia" ou "boa noite". Nada de cobranças e nem de explicações. Se algum dia houve um elo familiar ali, ele foi quebrado por inteiro não deixando nada para trás. Era questão de obrigação, quando ia ao mercado comprava um pacote de balas de morango, canetas esferográficas, seus cigarros e alguma coisa semi pronta para ele e seu pai. Sempre distante e se sufocando sempre mais, fingia que não se importava mas era impossível, se cobrava demais, queria mesmo não se importar. Os tios ligavam e perguntavam se estava tudo bem, ele mentia, dizia estar tudo bem, dizia ter a dispensa cheia e o pai sóbrio, mentia estar molhando as plantas que já haviam morrido á anos. Mentia para os outros e para si mesmo. Chegava em casa do mercado, passava pela sala iluminada pela mesma televisão, com as mesmas garrafas e o mesmo vazio. Recolhia a sujeira mas não desligava nada, ia á cozinha, jogava tudo fora, entrava no quarto e entre uma bala e outra preenchia linhas e linhas com as canetas esferográficas. Havia vezes de sentir tanto ódio que rasgava uma folha ou outra, ou até mesmo estourava uma nova caneta. Levantava, lavava as mãos, passava pela sala e voltava. Mesmo passando tanto por esse cômodo não se lembrava de um dia ter sentado naquele sofá, nunca ficou lá por mais que dois minutos, nunca ligou o ventilador ou até mesmo a luz. Só passava, fazia o que tinha que fazer, comia uma outra bala e passava de novo, só assim.


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